Quer protestar? “Pegue sua bandeira” e vem pra rua

Saúde, educação, direitos iguais… Confira a ampla pauta de reivindicações

RJ - 18/06/13, Dia seguinte / Manifestação / Rio

Por que o Brasil protesta?

Transporte público

As mobilizações tentam barrar os reajustes das passagens e clamam por mais qualidade e pela implementação da tarifa zero

Copa do Mundo

Os  elevados gastos com a realização de grandes eventos esportivos têm  causado indignação. Pede-se a aplicação desses recursos em áreas como  saúde e educação

PEC 37

Os manifestantes protestam contra a proposta de emenda à Constituição que tira poderes de investigação do Ministério Público
Reforma política A sociedade quer destravar a discussão, engavetada há mais de 20 anos pelo Congresso

Aborto

Ao  estabelecer que o nascituro existe a partir da concepção e não do  nascimento, o estatuto em discussão no Congresso emperra a discussão  sobre o aborto e encontra resistência

Livre orientação sexual

Cresce  o movimento contra o projeto de cura gay, aprovado ontem na Comissão de  Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados

Memória

Os movimentos lutam pelo direto à memória, à verdade, à justiça e contra os crimes da ditadura militar

Voto secreto

Com  o slogan de “voto secreto não, quero ver a cara do ladrão”, pede-se que  todas as decisões sejam públicas no Congresso e nas demais casas  legislativas do país

Direitos humanos

Atos de violência e repressão desproporcional em conflitos na cidade, no campo e contra povos indígenas mobilizam a população

Corrupção

Mais uma vez, o povo pede mais transparência e o combate aos malfeitos.

O país vive um levante. E não é por R$ 0,20. É por direitos. Na última segunda-feira, a nova cara do Brasil tomou as ruas e subiu no teto do Congresso. Cobrou tarifa zero, sim. Mas também escolas e hospitais com padrão de país desenvolvido. Naquela noite histórica, uma adolescente de 16 anos levou ao coração do Planalto Central um aviso fluorescente que amarrava o turbilhão de reivindicações. “Desculpe o transtorno, estamos mudando o país.” Como se diz nas redes sociais, o “gigante acordou”. O caldeirão de frustrações e reivindicações negligenciadas transbordou. E aquele 17 de junho mostrou que a onda é muito maior do que se imaginava.

“Uma das raízes de tudo isso é uma crítica muito forte ao sistema político. O que a gente está vivendo é esse acumulado. É como um copo que você vai enchendo. Chega uma hora que ele extravasa. Houve uma série de manifestações que não foram bem-sucedidas — os movimentos ‘fora Renan’ e ‘fora Feliciano’ são alguns deles. O povo está no limite”, disse o pesquisador Marcello Barra, do Núcleo de Estudos em Políticas Sociais do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB).

O movimento foi se desenhando aos poucos. Na quinta-feira da semana passada, os manifestantes que tomaram as ruas de São Paulo foram reprimidos pela polícia. Aquele dia marcou uma ruptura e fortaleceu ainda mais as manifestações. Cidades como Brasília, onde as tarifas do transporte público não estavam na agenda do dia, viraram palco de protestos em apoio às capitais onde a população já tinha ido às ruas e em oposição aos elevados gastos com obras para a Copa do Mundo de 2014. A pauta rapidamente se ampliou. Luta contra a corrupção, livre orientação sexual, respeito aos direitos humanos, fim do voto secreto, liberdade de expressão. Em última instância, democracia. De verdade.

Em uma tentativa de explicar o que de tão complexo demanda mais  perguntas que respostas, Marcello Barra compara o momento atual às  Diretas Já. Na época, diz, tentava-se derrubar uma ditadura e  estabelecer um regime democrático. Agora, o movimento multitudinário que  tomou as ruas mostra que o direito ao voto não é suficiente. “Na  democracia formal, você vota de quatro em quatro anos. Na real, as  pessoas não só colocam os políticos no poder, como tiram. E definem como  querem ver os impostos pagos — que não são nada mais que dias de  trabalho — sendo aplicados”, afirmou Barra. No movimento a que se  assiste quase diariamente, assim como na tal democracia real, disse, as  lideranças não vêm a priori. “Elas serão resultado, consequência do  processo.”

Insatisfação
“O  lado mais positivo de tudo que está acontecendo é a participação  massiva dos jovens que saem às ruas nas grandes cidades e tentam  intervir nas políticas públicas”, disse o professor de ciência política  Lúcio Flávio de Almeida, da PUC de São Paulo. “O principal legado  positivo é a sensação de recuperação da coragem e da determinação de ir  para a rua manifestar sua contrariedade. O legado é a prática da  cidadania. Agora é preciso lutar para que isso não seja desperdiçado”,  disse a socióloga e diretora do Centro de Estudos de Segurança e  Cidadania na Universidade Cândido Mendes, Julita Lemgruber.

Difícil,  disse ela, analisar um episódio histórico enquanto ele ocorre. “É um  momento muito interessante. Um movimento com uma série de  reivindicações, um movimento ainda um pouco difuso que a gente espera  que possa ter um resultado prático. Claramente, o aumento das passagens  de ônibus foi o gatilho para o extravasamento de uma insatisfação muito  grande com a política, com as autoridades e com as condições precárias  dos serviços públicos. A dificuldade hoje é tentar antever os  desdobramentos”, diz.

A crise de representatividade — que ajuda a  explicar a ausência de lideranças claras e a aparente horizontalidade  do movimento — e o número expressivo de pleitos em um único movimento  dão tom de ineditismo aos protestos. Mas também preocupam. “Essa  manifestação toda não tem uma liderança clara e uma definição de pauta  clara. O risco de isso se perder é muito grande. É o perigo que estamos  correndo, de que esse movimento maravilhoso possa se perder”, opinou  Julita Lemgruber. Amanhã tem mais manifestações em todo o país. É dia  nacional de lutas.

“Um momento muito interessante. Um movimento ainda um pouco difuso que a gente espera que possa ter um resultado prático”
Julita Lemgruber, socióloga

Fonte: Correio Braziliense

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